CENTRO DE CONVENÇÕES É INDUTOR DE DESENVOLVIMENTO?

05/07/2018

Ao longo da minha vida profissional, deparei várias vezes com essa pergunta ou pior, com as respostas a este questionamento. Ainda que não fosse bem a minha maior especialidade, acabei me envolvendo parcialmente em alguns projetos relacionados às nossas mais poderosas estruturas do MICE, tendo alguns parceiros especialistas por perto. Tratam-se nada mais do que as nossas grandes estrelas, os palcos de nossos maravilhosos acontecimentos, o alvo principal da atenção de nossos compradores: os centros de convenções e exposições. Bem entendido, que aqui me refiro aos construídos para essa finalidade, aqueles que a entidade do setor - a ABRACCEF - determina terem área de exposições superior a 1000 m2, auditório para um mínimo de 300 pessoas e mais duas salas paralelas.

Pois bem, os contextos das perguntas foram bem distintos, e daí a motivação de escrever esse artigo, pois diferentes situação podem trazer respostas até mesmo contraditórias entre si. Para tornar a leitura mais clara, vamos separar a explicação em três cenários: quando a resposta para a pergunta é afirmativa, quando há possibilidade de ser positiva e quando está fadada a ser negativa.


SIM, UM CENTRO DE CONVENÇÕES É INDUTOR DE DESENVOLVIMENTO QUANDO...

  • Trata-se de uma suplementação de uma oferta turística pré existente, qualificada e diversificada, incluindo-se obrigatoriamente acomodações de vários níveis de conforto, mas sobretudo, uma considerável quantidade de quartos (e não apenas camas) em hotéis de categoria turística ou superior; ótimas condições conectividade simultânea (fluxos de voos e ônibus, estradas); transporte local; boas estruturas de alimentação e entretenimento e principalmente variedade de serviços de apoio a eventos.
  • É planejado em tamanho proporcional a essa capacidade existente, e coerente com o tamanho dos eventos que se pretende e que sejam possíveis de serem atraídos para o destino. Não havendo demanda para realização de feiras de negócios, os pavilhões devem ser menores e a ênfase deve ser dada à flexibilidade de salas e ao conforto dos participantes e não aos elevados pés direito e metragem total.
  • Que seu conceito arquitetônico seja moderno, humanizado e sustentável, com ampla versatilidade dos espaços, utilização de luz natural, de energias alternativas e outras práticas coerentes com a preservação da natureza, permitindo ainda que os participantes tenham mais conforto e prazer durante a sua permanência nesse espaço.
  • São implementados por meio de estudos de viabilidade econômica que consideram a realidade financeira e a variabilidade dos resultados dos diferentes tipos de eventos, dentro de uma estimativa realista e baseada em estudos de mercado sérios e análises históricas de equipamentos similares, instalados em destinos com realidades socioeconômicas semelhantes.
  • Preveem uma gestão ágil e desburocratizada, com política de preços claras e compatíveis com as práticas de mercado, gestores técnicos, líderes de equipes competentes, motivadas e profundamente comprometidas com resultados o seu monitoramento de desempenho.
  • Sendo um investimento público, e deduzindo-se que o equipamento será meio (para atração de turistas de negócios e consequente aumento no volume de arrecadação de impostos por meio do gasto turístico) e não apenas fim (locação de piso para eventos) que tenha uma política clara de priorização de eventos de negócios e turísticos sobre os culturais, direcionados para público local. Isso porque esses últimos ocorrem nos finais de semana, inviabilizando a realização dos grandes eventos profissionais que requerem longos períodos de montagem e desmontagem.
  • Que a gestão desse equipamento conte com equipe e estratégias de comunicação e marketing definidas com pelo menos dois anos antes de sua inauguração, já que os eventos de negócios raramente requerem menos do que esse tempo para seu planejamento.
  • Que essa equipe contemple profissionais comerciais pró ativos e sejam realizados investimentos em programas de relacionamento e prospecção de compradores.
  • Que haja investimento permanente em manutenção e melhoria dos espaços.
  • E finalmente, que exista um trade turístico maduro e pró- ativo, que compreenda que apenas a existência de um equipamento não é capaz de vender o destino, visto que a realização de eventos requer sempre um conjunto e que a qualidade desse conjunto que define a competividade.

UM CENTRO DE CONVENÇÕES PODE NÃO SER INDUTOR DE DESENVOLVIMENTO QUANDO....

Quanto ao cenário em que a resposta ao fato do Centro de Convenções ter apenas a possibilidade de induzir o desenvolvimento, basta não ter atendido uma única das premissas anteriores. Por sua vez, a maior ocorrência de falta de atendimento às mesmas determina o maior ou menor grau de fracasso do investimento, caracterizando o terceiro cenário, onde esse gigantesco investimento pode não ter qualquer utilidade.

Exemplos de "elefantes brancos" no nosso país temos muitos: grandes, pequenos, recentes e antigos. Os mais lamentáveis são resultantes de estratégias de favorecimentos políticos onde centro de convenções são construídos em destinos que sequer podem acolher festas de aniversário simples e de pequeno porte. Constrói-se e depois dá-se a expectativa de achar algum investidor (?) que esteja disposto a torrar o seu dinheiro em um projeto fadado ao fracasso. Mas talvez seja realmente um problema de implicância ideológica...defensores do adoráveis ratinhos MICE definitivamente não se dão bem com elefantes, já dizia o ditado...